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Se nós não sabemos o que somos, como sabemos o que possuímos? Possuímos nós alguma coisa?

O pensamento desassossegado do poeta Fernando Pessoa nos convida a fundamental reflexão.

No mundo onde possuir as coisas ainda é tão importante, onde usamos com tanta frequência os pronomes possessivos, é desafiador pensar o contrário.

Minha casa, meu carro, minhas roupas, meu dinheiro e aí vai, passando pelos meus filhos, minha esposa, meu marido etc.

O ser humano ainda tem essa necessidade intensa da posse. Trazemos isso do primarismo da alma, dos tempos em que o ter era questão de sobrevivência.

Hoje não somos mais primitivos. Descobrimos que a alma é imortal. Que somos Espíritos vestindo um corpo transitório num planeta transitório.

Cada vez que nos vinculamos a um novo corpo trazemos apenas a inteligência e a moralidade previamente conquistadas.

E cada vez que nos desvinculamos dessa vestimenta física, através do fenômeno natural da morte, levamos conosco exatamente o mesmo.

Tudo que consideramos posse, fica. Vai para outros, muda de mãos, pois nos serviu por determinado tempo e agora deverá servir a outros.

E é assim que deveríamos enxergar os bens da Terra. Eles nos servem por um tempo, nos servem para algum propósito maior. Não têm finalidade em si mesmos. São instrumentos.

De forma alguma propomos o extremo oposto, o do menosprezo desses recursos. Todo fruto do trabalho honesto é merecido. Podemos e devemos usufruir desses resultados durante a vida.

A questão está no foco. Viver para ter ou ter para viver?


Mudando o foco lidamos melhor, inclusive, com as perdas que, em verdade, não são reais. São apenas mudança de mãos, de estado, de momento.

Quando alguém nos toma um bem precioso ou nos faz perder grande quantia de dinheiro, levando-nos à falência, a expressão de que usualmente nos servimos é: O trabalho de tantos anos se perdeu.

Será mesmo? O trabalho não se perde, pois o tesouro está em nós, no que aprendemos, no que enfrentamos, na brava sobrevivência, nos valores construídos ao longo da caminhada.

As posses se vão, mudam de endereço, mas o que nos fez conquistá-las permanece conosco, quando é autêntico, nobre e honesto. Essa é a nossa verdadeira propriedade.

Quando vamos a um país distante, nossa bagagem é constituída de objetos utilizáveis nesse país; não nos preocupamos com os que ali nos seriam inúteis.

Procedamos do mesmo modo com relação à vida futura: levemos o que lá possamos utilizar.

Ao viajante que chega a um albergue, se pode pagar, bom alojamento lhe é dado. Outro, de poucos recursos, fica em um menos agradável. Quanto ao que nada tenha, vai dormir ao relento.

O mesmo nos sucederá em nossa chegada no mundo dos Espíritos: depende dos nossos haveres o lugar para onde iremos.

Não será, no entanto, com nosso ouro que o pagaremos. Ninguém nos perguntará quanto tínhamos na Terra; que posição ocupávamos; se éramos príncipe ou operário.

Mas, nos perguntarão o que trazemos conosco. Não nos avaliarão os bens, nem os títulos, somente a soma das virtudes que possuamos.

Redação do Momento Espírita, com base no cap. 16,  item 9, de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, ed. FEB.